[Ones] Ronan - Jogos Vorazes

2/26/2014


Hello, Leitores! Hoje vim da continuidade com a nossa coluna de Ones aqui no blog. Demorei um pouco para escolher, mas como domingo eu já falei da Tia Suzanne porque não falar de Jogos Vorazes ? Afinal, quem não está ansioso para A Esperança- parte 1 ?
Geralmente esses tipos de capítulos são chamados de Oneshots ou como esse é baseado em uma música : songfic. A Nicolle ( quem escreveu ) é uma autora brilhante e eu adoro demais as histórias que ela posta, Ronan eu li ano passado e quem quiser saber um pouco mais de outras coisas que a Nicolle escreve só é clicar no perfil dela lá embaixo.


 Recomendado a todos que leram a trilogia inteira! Para aqueles que ainda não terminaram o terceiro livro pode conter Spoilers!

Notas da Autora :

Essa fanfic é na verdade uma songific de "The Hunger Games", ou seja, ela é baseada em uma música, no caso, na música "Ronan" de Taylor Swift. Além disso, esse é o único capítulo, mas eu espero que gostem.


 "Ronan"
Katniss’s POV
Era um lindo dia de Julho, o sol brilhava no ponto mais alto do céu no Distrito 12, o verão havia chegado e os raios de sol iluminavam e alegravam tudo ao seu redor. Não parecia certo, nada disso parecia certo diante de tudo que ocorrera há exatamente um ano, de tudo que eu havia perdido. Era extremamente contrastante: o dia perfeito e ensolarado, como se zombasse da minha dor, a pior dor que eu já havia sentido diante de tantas. Pois bem, o dia maravilhoso e belo permanecia, enquanto a dor no meu coração e alma era excruciante, como se cada parte de mim fosse se quebrar em pedaços enquanto eu me debulhava em lágrimas, apenas olhando a lápide diante de mim. Aquilo não era justo, não era certo, ele não deveria estar ali!
As lágrimas saltavam de meus olhos, e eu não ligava para nada, eu sabia que havia se passado um ano, mesmo assim, a dor só aumentava, nunca passava, a sua imagem nunca iria embora, e o vazio em meu coração seria eterno.
Senti braços familiarmente quentes ao meu redor, me protegendo, tentando me acalmar. Eu sabia exatamente quem me abraçava, ele estivera ali o tempo todo, sempre esteve, e eu sabia que ele estava da mesma forma que eu, derrotado, arrasado, porém, eu também sabia que ele me amava tão imensamente que tentaria me consolar antes de pensar em si mesmo. Assim que senti seus braços ao meu redor, fora impossível não respirar mais profundamente e segurá-lo com todas as minhas forças, fora impossível não chorar mais e soluçar. Suas mãos passeavam delicadamente por meu cabelo, numa tentativa frustrada de me deixar um pouco mais calma, no entanto, seus soluços eram audíveis, e as lágrimas que ele estivera segurando por mim, acabaram caindo em meu rosto, elas eram quentes e incessantes, eram lágrimas de quem havia perdido alguém extremamente importante, alguém que era uma parte suprema em sua vida.
Ficamos daquele jeito por instantes incalculáveis, nenhum de nós parecia se importar com o tempo, ou sequer com palavras de consolo, a dor se encarregava de tudo.
Até que, eu senti uma imensa vontade de ficar ali, sozinha, de conversar com o meu pequeno pedaço que havia partido, eu precisava ficar a sós com ele, pois desde que partira eu nunca suportara ficar sozinha com ele, mas agora, eu sentia a necessidade disso, a ideia era agora como o meu oxigênio, era urgente e um fator existencial. Eu precisava pensar e falar com ele, coisas que eu evitava fazer demais, ou sequer fazer, essa era a hora.
Desvencilhei-me lentamente dos braços de Peeta, o que o fez me olhar de forma confusa através das lágrimas que transbordavam de seus olhos azuis hipnotizantes, ao mesmo tempo em que eu secava as minhas próprias.
– Peeta. – disse seu nome, enquanto tentava controlar um soluço e me fazer de forte, o que só deixou minha voz entrecortada – Você poderia me dar um tempo com ele? Alguns minutos, eu só... Só preciso conversar com ele, você me entende?
Peeta segurou minha mão, analisando-me atentamente, o sol fazendo seu cabelo loiro refletir e ficar dourado, um pequeno raio de sol na terra, era o que ele parecia agora, na verdade, de certa forma, ele sempre fora meu próprio sol.
– Eu te entendo, Katniss. – disse ele assentindo e secando algumas de minhas lágrimas. É claro que entendia, ele já viera tantas vezes sozinhos, em compensação, eu que sempre fora mais “forte”, não conseguira vir uma vez sequer – Eu vou te esperar lá fora, tudo bem?
Assenti levemente, em seguida inclinando minha cabeça em direção à mão de Peeta, que ainda secava minhas lágrimas.
Fechei os olhos por um instante.
Eu amava Peeta com todas as minhas forças, eu sempre o amara, só nunca enxergara ou dera valor a esse amor antes. E agora, após quase vinte anos, parecia insuportável, para mim, pensar que um dia eu vivi sem ele, e doía mais agora, pensar que um dia eu poderia ter de lidar não só com a perda dele, mas de Peeta também. Meu coração não aguentaria isso, já não aguentava agora, apenas meu marido e minha filha me davam forças para continuar vivendo, amando, ou mesmo sorrindo. Perder Peeta seria como perder outra parte de mim, e eu não queria nem imaginar isso.
– Eu não vou demorar. – disse sussurrando e segurando a mão de Peeta, para então depois secar suas lágrimas.
Há vinte anos nunca pude me imaginar sendo romântica, não depois de tudo que vivi, mas quando eu estava com Peeta, era quase impossível não fazer gestos do gênero, ele trazia à tona o melhor de mim.
– Prometo, eu só preciso desse... Desse tempo. – completei.
Foi a vez de ele assentir.
– Tudo bem, Katniss, pode demorar o tempo que for, eu estarei te esperando. – seus olhos azuis eram sinceros, eu sabia que ele me daria o tempo que fosse necessário, mas eu também sabia que não podia demorar muito, logo seria a hora que Viollete, nossa filha, voltar da escola, e precisávamos estar em casa.
Peeta olhou nos meus olhos e segurou na minha mão uma última vez, como para ter certeza de que eu estava relativamente bem. Acho que minha expressão era um meio termo entre tristeza e serenidade, que fora o suficiente para meu marido decidir que eu podia ficar sozinha com a lápide de nosso filho.
Ele se virou e seguiu em direção aos enormes portões de ferro do cemitério do Distrito 12. O local era relativamente novo, fora criado após a Rebelião, já que desde então, o Distrito recebera a atenção que sempre deveria ter recebido, e sendo assim, agora tinha hospitais, lojas, as pessoas não passavam mais fome, o Distrito havia evoluído mais em 20 anos do que durante toda sua existência. Agora as pessoas viviam com dignidade, e esse era um dos motivos pelo qual eu me sentia orgulhosa de ter feito parte da Rebelião, mesmo com tudo que aquilo acarretou em minha vida.
Continuei observando Peeta sair do cemitério, ele olhou para mim quando finalmente chegou aos portões, apenas para ver se estava tudo certo, e então, ele virou à esquerda e eu já não o via, mas sabia que ele me esperava e que esperaria o tempo que fosse, isso me deixava segura e tranquila.
Finalmente, após estar completamente sozinha, suspirei, sentando-me na grama ao lado da lápide, analisando-a.
A mesma era pequena, equivalente ao pequeno tamanho que meu filho tinha quando... quando morreu, há exato um ano.
Era estranho ir ali, e ver uma espécie de pedra para representar meu filho, era tão errado pensar que uma criança morrera e fora enterrada tão jovem, com tanta vida pela frente! De qualquer forma, olhei para ele, vendo as flores que Peeta e eu havíamos trazido sobre o jazigo, as flores que o pequeno sempre amara, as que deram o nome a sua tia e que também se encontrava no nome de sua irmã: Primrose.
Pensar nele, em Prim, isso me fez voltar a chorar, mesmo que eu não quisesse. Logo, as lágrimas eram tantas que tapavam minha visão, me impediam de ver qualquer coisa ao meu redor, me impediam de pensar, e por isso mesmo, seguida de um estranho impulso, lancei-me sobre a lápide, como se a abraçasse, as lágrimas foram ficando ainda mais espessas.
Meus braços estavam ao redor de pedra fria, e meu corpo amassava as flores, mas eu não me importava naquele momento, pois o que eu realmente queria abraçar era o corpo pequenino, macio e delicado, eu só queria meu filho nos meus braços, embalá-lo e nunca mais deixa-lo ir. Porém, eu sabia que isso era impossível, então, eu comecei a soluçar e tudo o que eu queria era gritar, gritar. E foi exatamente o que eu fiz.
– Por quê? Por quê? – eu gritava a plenos pulmões, desesperada, as lágrimas caindo enquanto eu abraçava a lápide e tentava olhar o céu azul ao mesmo tempo. Todo esse tempo, eu só me perguntava “por quê?”.
Por que meu pequeno, por que Ronan? Por quê?
Eu continuei a gritar e chorar até minha voz ficar fraca, e eu tinha uma pequena consciência de que Peeta devia estar me ouvindo, que deveria estar sofrendo, por nosso filho e por mim, mas aquele era meu momento egoísta, eu não estava me importando com o que Peeta estava ouvindo, eu só queria saber da minha dor. Porque, durante aquele um ano eu tentara ser forte, evitar lágrimas demais, eu tentara levar uma vida normal a partir da segunda semana do falecimento de Ronan, porque eu sabia que precisava tentar manter a calma, ao menos externamente, meu marido e filha precisavam de mim, por mais que eu quisesse fazer exatamente como quando Prim morreu, eu não podia, não podia, eu os amava também, não poderia lhes inflingir mais dor. Mas isso, de alguma forma, apenas aumentou minha dor, aumentou o tamanho da perda, tentar ser forte e não chorar na frente de todos, isso exigira força demais, os sorrisos vazios, as palavras ditas por se dizer, o coração sem sentir nada realmente importante, tudo fora cansativo demais. Na verdade, eu não sentira nada durante um tempo, era como ser uma morta viva, nem Peeta, nem Viollete me faziam reagir verdadeiramente, eu apenas tentava parecer natural, mas demorou até que meu corpo voltasse a responder aos toques de meu marido e filha.
E agora, depois de tanto tempo fingindo, evitando realmente sentir toda dor da perda, apenas não sentindo nada, agora que eu estava ali, me permitindo sentir tudo completamente, sem barreiras ou empecilhos, doía, doía muito. Era como se meu coração estivesse se partindo em um milhão de pequenos pedaços, e eu tinha um pequeno medo subconsciente de que depois disso eu ficasse perdida em meu mundo, de que não quisesse saber de ninguém, mesmo assim, eu precisava sentir, porque evitar estava apenas piorando tudo, estava me matando por dentro, me consumindo, enlouquecendo.
Respirei fundo, profunda e lentamente, expirando em seguida, não sei dizer quantas vezes fiz isso, mas fora tempo suficiente para minha respiração voltar ao normal e minhas lágrimas cessarem um pouco. Ao final, quando eu estava mais controlada, e não queria mais gritar, acabei rolando para o lado da lápide, algumas flores grudadas em meu vestido claro, no entanto, eu não estava ligando para isso, eu apenas permanecia deitada ao lado de meu filho, olhando o céu azul através das lágrimas que ainda não haviam caído, uma de minhas mãos sobre o jazigo.
Olhando para o sol brilhante até que doessem meus olhos, pensei em como o mundo dava voltas. Durantes tantos anos eu não havia desejado ter filhos com medo de que pudessem ser levados para os Jogos, ou que fossem viver na miséria do Distrito 12, então veio a Rebelião, com suas centenas de consequências, dentre elas: o fim dos Jogos Vorazes. Porém, isso não fora suficiente para que Peeta me convencesse a tê-los, eu ainda tinha medo de tudo que poderia acontecer, principalmente após a morte de Prim, eu tinha medo de não ser uma boa mãe, de que meus pesadelos se tornassem reais em algum momento, mas eu amava tanto Peeta, e nosso relacionamento ficou tão sério, tudo estava tão perfeito: o Distrito melhorando, os Jogos com um fim definitivo, os pesadelos ainda existiam, mas com Peeta ao meu lado tudo ficava bem; e eu sabia que ele não estava completamente feliz, pois não tínhamos filhos. Então, no fim, por ele, eu acabei decidindo tê-los.
A princípio, eu pensara que fora só por Peeta, mas a verdade é que lá no fundo, eu também sentia que faltava algo, e o nascimento de Viollete apenas provou isso.
Claro, a gestação fora um período em que eu ficara extremamente assustada e nervosa. Eu tinha medo do que poderia acontecer, tinha medo da vida que começava a crescer dentro de mim, mas também havia tanto amor, desde o início, eu sempre a amei, com todas as minhas forças, de uma forma que eu nunca pensei que seria capaz de amar, e junto com Peeta, o medo foi ficando em segundo plano, eu só conseguia pensar em nossa família. Então, Viollete nasceu, e aquele era o dia mais feliz da minha vida até então, segurá-la em meus braços, sentir seu corpinho quente contra o meu, suas mãozinhas mexendo, me procurando, aquilo fora tão incrível, aumentara tanto meu amor por ela, me fizera ficar encantada: chorar e sorrir ao mesmo tempo, eu queria cantar e dançar, beijar Peeta, beijar minha filha, parecia que finalmente tudo estava certo. Peeta era o pai mais carinhoso e amoroso do mundo, além do mais preocupado, e ele havia ficado tão feliz, que contagiava todos a sua volta com sua felicidade. Eu lembrava que nessa época os pesadelos diminuíram bastante, sumir nunca, eles nunca sumiam, mas eles haviam diminuído, dando lugar a alguns sonhos, sonhos que eu não tinha há tantos anos.
A pequena Viollete fora nossa benção, sua risada ecoava pela casa, seus olhos azuis brilhavam iguais aos do pai, e seus cabelos escuros eram cacheados como os meus, ela havia virado a atração da casa, a concretização do nosso amor. Eu lembrava como havia ficado boba quando ela deu os primeiros passos, como disse “Mamã” pela primeira vez e eu quase chorei, eu lembrava tudo, e isso me permitiu sorrir um pouco, pensando em como ela ainda era nossa luz.
Pouco tempo depois, veio Ronan. E eu voltara a sentir tudo aquilo novamente, fora tão bom, como borboletas no estômago. A gestação dele fora mais fácil, mas não completamente, eu ainda ficara nervosa, mas assim como a irmã, segurá-lo nos braços fora perfeito, ele parecia um anjo, os cabelos de Peeta, meus olhos cinzentos. Nossa família estava perfeita, tudo parecia incrível, Peeta e eu mais felizes do que nunca, a casa feliz, o Distrito em condições ótimas, as vidas haviam mudado, nossos pesadelos estavam distantes, ao menos, era o que eu achava.
Ronan tinha três anos quando fora diagnosticado com neuroblastoma, uma espécie de câncer que afeta principalmente crianças, tudo começara com febres e mal-estar, por isso havíamos o levado ao médico, e então, veio a notícia de que nosso filho tinha câncer, e que as chances de cura eram pequenas, mas existentes.
Nós ficáramos arrasados, Peeta e eu, nós choráramos e entráramos em desespero, era como se Ronan já tivesse morrido quando recebemos a notícia, e eu não conseguia aceitar o fato de que a linda criança loira de três anos tinha uma doença tão séria, uma doença que poderia levar a morte.
Olhei para meu lado direito, o lado do jazigo, onde se podia ler: “Eu te amo até a lua e a volta, meu pequeno anjo, descanse em paz.”. Embaixo havia um nome, o nome dele: Ronan David Mellark.
Isso me fez voltar as lágrimas, conforme me recordava de tudo o que houve.
Peeta e eu tivemos de nos recompor, sentar ao lado de Ronan e tentar explicar o porquê ele teria que fazer tratamentos, ficar horas e dias no hospital, porquê ele teria que deixar a escola, e que seu cabelo também iria cair. Ele era uma criança, mas notara as lágrimas no meu rosto e no do pai antes mesmo que elas fugissem de nossos olhos e percorressem nossos rostos, ele notara a tristeza em nosso olhar, ele percebera que aquilo nos deixava triste, porém, ele estava determinado a não nos ver assim, e fez algo que me surpreendeu:
"Mamãe, eu te amo! Papai, eu te amo!" – e dizendo isso, ele esticou suas mãozinhas gordinhas até tocar no pai e em mim, isso fora tão tocante, que Peeta e eu trocamos um olhar, sorrimos e o abraçamos juntamente. Aquele era nosso pequeno anjo, e nós não desistiríamos dele tão fácil.
Agora eu olhava novamente para o céu, chorando como um pequeno bebê. Era tudo tão injusto, eu daria tudo para tê-lo em meus braços, tudo, na verdade, eu daria tudo para que Ronan estivesse vivo, inclusive minha vida.
Ainda olhando para o céu, foi impossível não lembrar os olhos do meu anjo, os olhos cinzas que ficavam tão azuis na luz do sol, exatamente a mesma cor do céu de hoje, os olhos que olhavam nos meus como se fizéssemos parte de um clube secreto.
Lembrando, eu chorava e sorria, ele era tão parecido com Peeta, ele era tão melhor que eu - por dentro e por fora - ele era amor, carinho, ele era tudo de bom, assim como Viollete, eles eram a minha vida.
Então, eu me lembrava dos seus pés descalços no chão no corredor, enquanto ele corria para abraçar Peeta, que havia chegado do trabalho.
Eu me lembrava dele brincando com Viollete, as duas crianças mais felizes do mundo, tentando subir no corpo de Peeta e fazê-lo de cavalinho, eles amavam isso.
Havia os carros de corridas e os dinossauros de plástico espalhados pelo chão da cozinha, uma bagunça completa, mas tudo porque eu estava fazendo a comida e ele não queria me deixar sozinha, era o que ele dizia.
Sua risada de sino dos ventos, que encantava a todos e me fazia parar de fazer barulho apenas para ouví-la, porque era um dos meus sons preferidos. As danças loucas antes de dormir, ele amava dançar, e ele amava cantar a música que eu e Peeta havíamos o ensinado:
“Escondido na Campina, sob o salgueiro
Uma cama de capim, um travesseiro macio verde
Deite sua cabeça, e feche seus olhos sonolentos E quando novamente eles abrirem, o sol vai nascer.
Aqui é seguro, aqui é quente
Aqui as margaridas te guardam de todo mal
Aqui seus sonhos são doces e o amanhã os fará verdadeiros
Aqui é o lugar onde eu te amo.”.
Eu ainda era capaz de ouvir sua voz ecoando em minha mente, assim como conseguia sentir como era ser acordada enquanto os pequenos pulavam em cima de mim, eles sempre faziam isso, e eu sempre amava, fazia eu me sentir feliz, porque eu amava ser acordada assim, amava que os pesadelos fossem embora.
Mas lamentavelmente, meu pior pesadelo não fora nenhum dos que eu havia tido, meu pior pesadelo só estava começando.
Foram meses de quimioterapia, cada vez Ronan estava mais fraco, cada vez nós desanimávamos mais, e eu tentava ser forte para ele, mas eu chorava todas as noites, e eu acordava gritando todos os dias, até Peeta começara a ter pesadelos junto comigo. Aquilo estava acabando conosco, com Viollete, com Ronan, a única coisa que recompensava era continuar a ver seu sorriso todas as manhãs, porque mesmo com tudo que ocorria, com os medicamentos, as horas no hospital, mesmo com tudo isso, ele nunca parara de sorrir, absolutamente nunca.
Com minha mão livre levei-a até meu rosto, tentando secar as lágrimas que estavam ali, mesmo sabendo que mais viriam em breve. Principalmente porque as imagens dos últimos dias vinham com uma velocidade arrasadora de encontro a mim, e eu não podia controlar as lembranças dos dias mais tristes da minha vida.
Tudo começara como apenas mais uma manhã normal, ou seja, eu havia acordado gritando, mais um pesadelo por causa dos malditos jogos. Mas diferentemente do comum, tateei a cama e Peeta não estava deitado ao meu lado, pronto para me acalmar e dizer que tudo estava bem. Sendo assim, levantei-me rapidamente de minha cama, temendo que algo tivesse ocorrido, e segui procurando-o pelos quartos da casa, por fim, achei-o no quarto de Ronan, sentado ao lado da cama de nosso filho, passando a mão pelos cabelos loiros do pequeno, cabelos esses que caíam cada vez mais por causa da quimioterapia. Eu quase dei um suspiro de alívio, pronta para abraça-lo, não fossem seus olhos azuis extremamente preocupados, quase urgentes eu diria, olhando atentamente para Ronan, e por fim, notando minha presença, olhando nos meus, naquela hora eu soube que algo estava muito errado, Peeta não estava passando as mãos pelos cabelos de Ronan, estava vendo sua temperatura.
“O que houve?” – eu perguntei, o coração na boca, eu não queria ouvir a resposta.
“Temos que leva-lo ao hospital” – respondera Peeta, sua voz soava tão triste.
“Por quê?” – eu sabia porquê, mas só queria que fosse mais um pesadelo.
Peeta engoliu em seco.
“Ronan está ardendo em febre”.
Tudo que aconteceu depois daquelas palavras foi como um flash em minha mente. Num instante estávamos em casa, com roupas de dormir. No outro havíamos trocado de roupa, deixado Viollete com nossos vizinhos (que aliás, eram Haymitch e Effie) e seguido direto para o hospital do Distrito 12.
Eu lembrava como fora passar por aquelas portas, Peeta carregando Ronan (ainda adormecido) enquanto eu segurava uma de suas mãozinhas gordinhas. Eu queria entrar em desespero, mas a esperança, a preocupação e adrenalina não deixavam, eu precisava estar completamente bem para meu filho, eu não podia desmoronar agora, não podia.
Logo um grupo de médicos veio até nós, tirando Ronan dos braços de Peeta e o levando para a emergência, obviamente, nós queríamos ir junto, não queríamos deixar nosso filho, porque nós sabíamos que poderia ser a última vez, mesmo assim, não pudemos fazer nada, e mesmo frustrada por não estar ao lado do meu pequeno, deixei-me ser abraçada por Peeta. E apenas nessa hora notei o quanto tremia, na verdade, nós dois tremíamos, era como se nossos corpos e corações sentissem que o fim estava próximo.
Nós ficáramos algumas horas ali, sem notícias, mas tudo aquilo parecera dias e dias de angústia, durante todo o tempo ficáramos abraçados, de pé, sem conseguir sentar ou nos mover, apenas continuamos ali.
Quando finalmente o médico chegou, as notícias não eram nada animadoras, eu soube disso quando ele decidiu nos levar até sua sala, seu olhar já era de pena sobre nós, e eu quase cai no choro quando o percebi.
Ao entrarmos na sala, Peeta e eu nos sentamos, lado a lado, as mãos sem se soltar, nós éramos um só naquele momento.
As notícias não eram nem um pouco boas, o médico nos disse que o neuroblastoma havia ocasionado a febre, mas ele disse mais, disse que pelos exames o câncer havia piorado, definitivamente a quimioterapia não havia tido efeito, havia tumores espalhados pelo corpo de Ronan, e os mesmo atingiam áreas como tecido ósseo, medula óssea e fígado, assim que eu ouvi isso, meu coração parou, eu apertei a mão de Peeta mais fortemente, ele correspondeu ao meu aperto, ele sentia o mesmo que eu.
No entanto, o médico não parara de dizer o que queria que soubéssemos. Ele prosseguiu, falando dizendo que além desses lugares, os tumores haviam chegado a um lugar pior: a base do crânio e ao encéfalo. Naquela hora, foi como se estivessem tirando o chão sob os meus pés, eu me senti caindo em queda livre, apenas a mão de Peeta agarrando a minha com força dizia que eu continuava ali, que tudo era real.
Eu sabia o que aquilo significava, eu sabia o quão grave a situação estava: não havia cura, não havia solução, eu via nos olhos do médico que nem ele tinha esperanças, fora visível quando ele tirara seus óculos e esfregara seus olhos.
Peeta e eu começamos a chorar, nem gritar com o médico, ou implorar uma solução nós tínhamos conseguido fazer, depois de tanto tempo vivendo entre casa e hospital, depois de tanto pesquisarmos sobre a doença, sabíamos que quando a metástase ocorria, era porque o fim estava próximo.
Nós choramos, apertamos nossas mãos mais firmemente, e continuamos a chorar, o médico permaneceu ali, mas sem dizer nada, ele deveria saber o suficiente que aquele era nosso momento para chorar, lamentar.
Após alguns muitos minutos, Peeta e eu parámos, pois acho que lembramos que Ronan ainda estava vivo, que nós tínhamos que estar com ele. Mas antes que pudéssemos falar qualquer coisa ao doutor, ele fizera questão de tentar dar esperanças, dizendo que ele poderia viver mais algum tempo, em nenhum momento dizendo que viveria mais anos. Não! Apenas dizendo que ele poderia continuar mais um pouco entre nós, que eles tentariam de tudo. Eu sabia que tentariam, mas eu também sabia que não seria o suficiente.
Passados alguns instantes, Peeta e eu já restabelecidos, fisicamente falando, de nosso choro. O doutor nos levou para ver Ronan, que segundo ele estava sob a ação de alguns remédios, numa maca, já desperto, mas meio dopado.
Rapidamente, Peeta e eu entramos no quarto branco, mas para ser sincera, eu não notei nada ao redor do quarto, eu só conseguia focalizar meu filho, deitado numa maca, cheio de fios ao seu redor, o remédio entrando por suas veias, os olhos fechados.
Automaticamente, soltei a mão de Peeta e corri até meu filho, mesmo sabendo que não deveria fazê-lo, eu me lancei sobre ele, abraçando-o de forma que não soltasse nem um fio, mas que ainda sim eu pudesse senti-lo. Abracei-o, e chorei, chorei como um bebê sobre meu pequeno anjo, meu marido se juntou a mim, ele também chorou, ele também nos abraçou.
Eu pensava que Ronan estava completamente sonolento e dopado, porém, ele me surpreendeu, falando:
“Mamãezinha, tudo vai ficar bem?” – ele perguntara, a voz apenas um fiapo, tão fraca e distante.
“Sim, meu anjo, tudo vai ficar bem.” – eu menti, chorando mais e abraçando-o, eu não conseguia me controlar, eu não podia para de segurá-lo em meus braços e chorar, porque aquela podia ser a última vez que eu falava com ele. Então, eu continuei a chorar, agarrada a ele e a Peeta.
No entanto, aquela não fora a última vez que ele falara comigo.
Nós passáramos dias no hospital, e nunca havíamos voltado com Ronan para casa, mas era comum haver horas no dia em que a dosagem dos remédios era baixa e ele conversava um pouco comigo e com o pai, nunca muito, apenas alguns minutos, mas o suficiente para me fazer sorrir um pouco, e me deixar chorando rios depois. Peeta e eu nunca abandonávamos seu lado, a não ser que fosse extremamente necessário, e confesso que uma parte de meu cérebro e coração se voltavam para Viollete, com saudades dela, em geral, era nessa hora que Haymitch e Effie entravam em ação, levando-a para algum lugar perto do hospital, já que ela não podia entrar nele. Claro, ela perguntava sobre o irmão, sobre porque de não termos voltado para casa, as perguntas eram muitas, mas eu sempre as desviava, me concentrando apenas em abraça-la e não chorar em sua frente, eu estava fragilizada, e isso piorava porque Peeta nunca estava ao meu lado nessa hora, porque Ronan nunca ficava sem um de nós com ele.
E quando eu começava a criar esperanças de uma possível melhora, chegara o último dia: 10 de Julho.
Desde a manhã eu soubera que seria um dia difícil, não só meu coração dizia isso como o de Ronan, o coração dele estava muito instável nesse dia, as batidas iam de rápidas a muito lentas, nunca normais. Naquele dia ele não falou em momento algum, não houve um momento de melhora visível, ele apenas ficou lá parado, seu único movimento fora apertar minimamente minha mão pela manhã, e isso me deixou tão feliz quando ocorreu, quase fez Peeta sorrir. Mas o quadro dele apenas piorou durante o dia, toda hora médicos entravam e saíam do quarto, toda hora os olhares eram mais cabisbaixos, as doses dos remédios haviam aumentado, mas segundo os médicos, os tumores haviam atingido lugares específicos do cérebro, Ronan tinha no máximo horas de vida, em nenhum momento os médicos nos esconderam isso, e mesmo que tentassem, não teriam conseguido, Peeta e eu já sabíamos.
E mesmo assim, eu me sentia caindo novamente, me sentia caindo enquanto olhava meu filho na mesa ao lado, deitado, morrendo.
Eu só queria trocar de lugar com ele, livrá-lo daquilo tudo, dar-lhe minha vida, era apenas isso que eu desejava.
Durante todo aquele dia eu ficara ao lado dele, segurando-o, abraçando, Peeta ficara do outro lado dele, e em nenhum momento o deixamos, na verdade, naquele dia, nem comemos, Ronan era a única coisa importante.
No final da tarde, no ponto mais alto no meu choro, me lembro de ter levantado de minha cadeira, me inclinado sobre ele, beijando sua testa e sussurrado:
“Eu te amo, meu pequeno anjo! Desde sempre, eu te amo até a lua e a volta. Eu te amo, e eu sei que você está sofrendo, eu queria que você não sofresse, eu queria poder tomar seu lugar, para você não sentir dor, para você não ter que partir, porque eu não quero que você vá. Mas eu não posso fazer isso, meu pequeno, a mamãe não pode tomar seu lugar, nem o papai, porém, nós amamos você e sua irmã mais que tudo, nós não queremos ver você sofrer, nunca. Eu te amo!”
Eu abracei-o, quase deitando sobre ele, o beijando, beijando meu pequeno príncipe. Peeta também disse lindas palavras a Ronan, palavras tão lindas que só Peeta para dizer, mas sendo sincera, assim que ele as disse eu as esqueci, porque eu estava tão perdida na dor de meu filho, na minha e em minhas lágrimas que não paravam de cair, que só conseguia saber que o que Peeta dizia era lindo, e que ele chorava tanto ou mais do que eu.
Logo, nós dois estávamos nos abraçando e abraçando Ronan, nossas lágrimas quase inundando o local.
Nos minutos seguintes eu consegui sentir que seriam os minutos finais, era apenas mais um pressentimento de mãe, e eu queria estar errada, mas eu sabia que não estava. Eu queria estar pronta, porém, nunca estaria pronta para dizer adeus e ver um filho morrer, nunca estaria pronta para isso, no entanto, eu sabia o que devia fazer agora. Ele havia lutado contra aquela doença como um soldado, eu sabia que agora ele teria seu descanso, que ele se tornaria um anjo de verdade, isso não diminuiu minha dor, mas pensar que a dele se extinguiria me deu forças para sussurrar as últimas palavras que diria a meu bebê:
“Venha comigo, querido, vamos voar para longe daqui para longe deste quarto com cortinas e esse cinza de hospital, vamos apenas desaparecer. Venha comigo, querido, vamos voar para longe daqui. Eu te amo, você foi meus melhores quatro anos!”
Pensando agora, eu não conseguia descobrir como eu havia tirado forças para dizer aquilo a ele, porque eu chorava feito uma criança desesperada, eu chorava como se o mundo estivesse acabando, na verdade, o meu estava.
Apertei-o em meus braços, permitindo-me sentir seu coraçãozinho batendo, saber que estava batendo não por causa do bipe da máquina ao lado, e sim porque pulsava de encontro com o meu.
O coração de Ronan parou de bater menos de cinco minutos depois de minha fala, como se ele estivesse esperando por aquilo. Quando parei de sentir o coração debaixo do meu pulsar, minha mente sabia que tudo havia acabado, sabia que não veria mais os olhos cinza azulados do meu bebê brilhando novamente, que nunca mais o veria correndo pelo corredor da casa, ou ouviria sua risada de sino dos ventos. Mesmo assim, meu coração se prendeu a fé cega de que os médicos conseguiriam trazê-lo de volta, que o salvariam.
Na verdade, os médicos surgiram segundos depois, e Peeta, mesmo chorando, foi obrigado a me tirar de cima de meu filho, ele teve que me arrastar para fora da sala, pois os médicos tentariam trazê-lo de volta. Meu marido fora obrigada a me carregar, porque eu chorava e esperneava porque eu não queria deixar Ronan, não podia.
Ficamos do lado de fora por intermináveis minutos, meu coração batendo rápido e esperançoso, por algum motivo a esperança vencia a racionalidade, e enquanto Peeta me embrulhava confortavelmente em seus braços, eu começava a rezar, coisa que eu começara a fazer bastante recentemente.
Mas de nada adiantou, porque logo um dos médicos apareceu, seu rosto branco como uma vela, eu sabia o que ele diria, mas não queria ouvi-lo.
“Sinto muito, nós tentamos de tudo, mas...”.
“NÃO!” – eu gritei, ignorando o fato de ser um hospital “Não, não, não.” – eu chorava, gritava e abraçava Peeta “O nosso bebê não, não!”.
Eu sentia as lágrimas de Peeta caindo sobre mim, as minhas se misturando as dele, seus braços me envolvendo protetoralmente.
“Ronan não resistiu contra o câncer, havia tumores em áreas de risco, que foram afetadas hoje, como eu disse, nós tentamos salvá-lo, porém... Não tivemos sucesso.”. – completara o doutor.
Peeta me abraçou mais fortemente, não fosse por isso eu teria desmaiado ali mesmo, o chão sob meus pés parecia fugir. Mas, o fato de Peeta estar ali comigo, me impediu de ser fraca a ponto de desmaiar, eu só queria ver meu filho.
Meu marido deve ter sentido o mesmo, pois logo disse as palavras que eu tanto queria dizer:
“Podemos vê-lo? Por favor?”.
O médico não achou o pedido estranho, deveria ser mais comum do que parecia. Ele apenas assentiu e nos guiou de volta para dentro da sala branca e cinza.
Aquilo fora uma das piores coisas: vê-lo ali, deitado, parecendo exatamente o mesmo de uma hora atrás: os quase inexistentes cabelos loiros bagunçados; a pele extremamente branca, macia e sensível; os olhos fechados solenemente, as mãozinhas abertas do lado de seu corpo pequenino; meu anjo continuava o mesmo, mas morto. Fora mais doloroso do que tudo, eu não conseguia pensar que a dor dele havia terminado, que ele estava num lugar melhor, eu só pensava que nunca mais o veria pulando no colo de Peeta, ou que nunca mais sentiria suas mãos gordinhas segurando as minhas, que nunca o veria crescer, não ouviria mais suas voz. Eu só pensava nisso, e isso me despedaçava.
Peeta e eu ficamos ali naquela sala por alguns minutos, ambos nos segurando, o segurando. Nossas lágrimas vinham tão naturalmente que eu nem reparava mais nelas.
Eu lembrava vagamente de termos sido retirados da sala, de ter assinado alguns papéis, mas depois daquilo a única coisa que lembro com clareza fora o rosto de Ronan, era o rosto de Peeta, porque foi a única pessoa que eu conseguia olhar.
Seu rosto estava devastado, ele estava tão mal quanto eu, as lágrimas secando em seu rosto, enquanto novas se formam nos seus olhos azuis. Olhos esses que costumavam ser brilhantes, mas que agora estavam foscos, sem luz alguma.
Ainda em seus braços, olhei-o fixamente, e vi todas as minhas emoções em seu rosto: raiva, tristeza, medo, saudade, amor, perda, tudo, tudo num único olhar.
Nós havíamos perdido nosso filho, e essa dor nunca seria esquecida, nunca poderia ser superada, ele era uma parte de nós, e nós continuaríamos a amá-lo, independente do que acontecesse.
Voltando a realidade, deixei de encarar o céu e o sol ofuscantes, minha visão prejudicada pelo tempo que olhei para os mesmos, por isso tive que olhar para o outro lado e piscar os olhos uma dezena de vezes, até que o túmulo de Ronan fosse focalizado.
Virei-me em sua direção, como se eu o abraçasse, como se recostasse a cabeça em seu pequeno corpo e o segurasse com todas as minhas forças, impedindo que fosse embora, quando na verdade, já havia ido.
Fechei os olhos e lembrei os dias escuros que se seguiram após sua morte.
Desses dias, a única coisa que passou como um borrão em minha mente foi seu enterro, quem cuidou de tudo foi Peeta, eu me reservei a minha dor, a evitar chorar muito perto de Viollete, a abraça-la o máximo que pudesse. Tanto que agora, tentando lembrar como foi enterrá-lo, eu não conseguia lembrar detalhes, apenas o contexto. Todos nós ali, no cemitério do Distrito 12, com nossos amigos mais próximos, nossos vizinhos (Effie e Haymitch), todos nós chorando, deixando as flores se acumularem da pior forma, e sem saber o que dizer sobre um lindo menino que morreu. Logo, seu pequeno caixão descia a terra, e o dia assumiu um tom nublado e triste. E enquanto todos tentavam fazer lindas declarações a meu filho, eu só havia conseguido chorar e dizer: “Eu te amo até a lua e a volta, meu anjo! E sempre vou te amar!”.
Peeta me segurou o tempo todo e, por conseguinte, eu segurei Viollete o tempo todo. Nós pensáramos em não leva-la ao cemitério, era algo muito triste para uma criança de seis anos, mas ela insistira que queria dizer adeus ao irmão.
Naquela manhã, Peeta e eu decidíramos ficar alguns minutos a mais, na verdade, era porque Peeta queria se despedir de Ronan, mas eu não conseguia fazer isso, então, só fiquei assistindo-o fazê-lo enquanto Haymitch e Effie levavam Viollete para casa.
A volta para casa, nossa volta para casa, fora terrível. Porque, acho que minha ficha caíra completamente, a esperança cega acabada, não houvera nenhum milagre, eu havia acabado de enterrar um dos meus bens mais preciosos, e nunca mais o veria, nunca mais.
Andando, presa nos braços de Peeta, eu voltara para casa, chorando e gritando: “Por quê? POR QUÊ?”. Eu sei que estava infligindo mais dor a Peeta, mas eu não conseguia meu controlar, era meu momento egoísta, assim como o de agora, era um momento meu, da minha dor.
Durante todo o caminho de volta, eu continuara a gritar, a chorar, porque eu havia percebido que assim como Prim, meu pequeno nunca voltaria, ele havia ido embora, e eu só conseguia pensar por que aquilo acontecera comigo e com Peeta, por quê? Depois de tudo que havíamos passado, tudo o que havíamos lutado, não era justo termos que passar por mais dor, no entanto, não era só isso que passava pela minha mente. Eu também me perguntava por que meu pobre menino tivera que sofrer, por que ele tivera que passar por isso? Era porque Peeta e eu nunca poderíamos ser felizes? Uma espécie de maldição do Snow contra nós?
E assim se seguiram os dias depois do enterro, em minha mente girando várias questões, mas era principalmente Ronan que surgia em meus pensamentos, a saudade dele era dilacerante, e a presença dele na casa era quase palpável. Naqueles dias eu ficara chorando pelos cantos, olhando o armário do meu anjo, cheirando as roupas que possuíam seu perfume infantil, tentando de alguma forma me comunicar com ele enquanto olhava tudo aquilo que ele jamais voltaria a usar.
Fora nesses dias em que eu ficara a maior parte do tempo em seu quarto, olhando suas coisas, isso quando não estava com Viollete e Peeta, porque agora eu tinha medo de perdê-los também. Eu devo admitir, a saudade de Ronan era tanta que eu estava ficando paranoica, mas, bem, o tempo é o tempo, ele passa, corre, a vida continua, assim como a saudade, e a dor mascarada por sorrisos.
Então, lentamente, minha vida com minha família fora voltando a ser como antes, eu voltara ao meu trabalho com Peeta na padaria, a passear com a família, rever Haymitch e Effie, assim como outros amigos, eu nunca esquecia meu pequeno, mas tudo deveria continuar, eu tinha que cuidar das outras pessoas que amava.
Porém, eu fiz algo errado, eu nunca tivera forças o suficiente para ficar no cemitério, sozinha, com o túmulo de Ronan, conversar com ele, não. Depois de tentar conversar com ele através de suas roupas, eu nunca mais tentara nada, absolutamente nada, e no decorrer daquele ano, após ver Peeta ir ali, conversar com ele quase sempre, aquilo acabava comigo, porque eu me sentia fraca por não conseguir fazer o mesmo. E eu simplesmente não fazia o mesmo porque eu não podia, ainda era demais para mim, eu não podia falar com ele sem ver seus olhos azuis ou ouvir sua risada, era demais para o meu coração, era o que eu achava. Até eu perceber que não ir ali falar com ele, estava apenas aumentando minha dor, a dor que eu mascarava com sorrisos, ela estava aumentando, esmagando meu peito, porque eu não a tirava dali, ela apenas permanecia.
Fora exatamente por isso que eu mudara de ideia e decidira ir até o túmulo do meu filho, mesmo que a dor e a saudade continuassem ali, na verdade elas sempre continuariam, eu me sentia mais leve, mais feliz, era como se relembrar toda a vida de Ronan junto dele fosse exatamente o que eu precisava para viver novamente, viver de verdade.
As lágrimas secavam em meu rosto, o sol começava a ficar menos brilhante no horizonte, e eu sabia que já era hora de ir embora, Viollete logo chegaria da escola, e precisávamos estar em casa. Mesmo assim, em permiti mais alguns minutos ali, recostada ao lado da pequena lápide, meio que abraçando-a, como se abraçasse o pequeno Ronan, me permitindo senti-lo envolvendo seu braços ao redor do meu, enquanto tentava beijar meu rosto.
Sorri amplamente, me lembrando dele, e fazendo uma promessa mental, de que eu nunca o esqueceria ou o deixaria de amar, mas que também, não deixaria a dor me consumir, não me deixaria derrubar, e voltaria a vê-lo mais vezes.
Sentei-me lentamente, aproveitando para olhar mais uma vez o pequeno túmulo, e pensando em algo que eu nunca havia pensado. Quando Ronan estava doente, eu acreditava que algum milagre poderia nos ajudar, mas agora eu via que o verdadeiro milagre fora ter passado ao menos algum tempo com ele.
Inclinei-me sobre o túmulo uma última vez, lhe dando um pequeno beijo, para então, antes de me levantar completamente, dizer ao meu bebê:
“Você foi meus melhores quatro anos. Eu te amo até a lua, e a volta.” – eu engoli o choro que estava prestes a voltar, eu não choraria mais, não agora, eu havia feito uma promessa, e iria cumpri-la, fora que eu já havia chorado tanto hoje, que nem tinha mais forças para fazê-lo.
Levantei-me da grama verde, olhando uma última vez para meu pequeno anjo antes de seguir pela grama verde do cemitério do Distrito 12, a caminho de Peeta, a caminho de casa, para ver minha filha.
Ainda faltavam uns bons metros até a saída, por isso, comecei a ajeitar um pouco meu vestido, que estava realmente cheio de grama, assim como meu cabelo. Enquanto os endireitava, lembrei como há anos atrás eu havia jurado não ter filhos, com medo de que eles fossem mandados para os Jogos, ou que morressem de fome. Haviam se passado mais de 15 anos, os jogos haviam acabado, a fome já não existia no Distrito 12, e mesmo assim, meu filho morrera, morrera por causa de uma doença, quem diria! Eu mesma nunca teria sido capaz de imaginar isso, até na ressureição de Snow eu chegara a pensar, menos que um câncer mataria uma das pessoas que eu mais amo. Acho que estava tão obcecada com tudo que ocorreu nos Jogos e na rebelião que me esquecera que existiam doenças mortais e incuráveis.
Sacudi a cabeça, afastando tais pensamentos, com medo que uma completa confusão de sentimentos viesse à tona. Eu deveria me concentrar em coisas boas, muito boas, eu deveria pensar que eu fora a pessoa mais feliz do mundo durante aqueles quatro anos, pois tiver um marido perfeito e duas crianças maravilhosas.
Enquanto caminhava por afora do cemitério, a procura de Peeta, pensando na risada dos meus filhos, eu podia jurar que os ouvia, alta e vividamente, assim como ouvia todas as manhãs, quando eles me acordavam. Inclusive, fui capaz de ouvir a voz de Ronan:
“Acorda, mamãe”
**********************************************************************
Sorri, era tão bom ouvir aquela voz.
– Acorda, mamãe, acorda! – era Viollete que gritava agora.
Rolei, mas, um instante, eu estava deitada? Senti um par de pés pulando em cima de mim, e um conjunto de risadas, a de Peeta ao meu lado, as outras duas sobre mim.
Sentei-me e abri os olhos ao mesmo tempo e tão rapidamente que todo o quarto parecia girar ao meu redor.
– Mamãe, você está chorando? – perguntou a voz da minha filha.
Sentada sobre a cama de casal, tentando fazer o quarto parar de girar, focalizei meus olhos na pequena menina morena dos olhos azuis que me encarava, em duvida. Ao seu lado, um pouco menor e mais gordinho, estava um pequeno menino loiro, dos olhos cinzas azulados, que me olhava alegremente, atrás dos dois estava Peeta, um sorriso parado na metade, como se ele houvesse percebido algo.
Estava todos bem, sorrindo, feliz. Então...
Fora tudo um pesadelo, mas um dos terríveis pesadelos que nunca me abandonavam, que me perseguiam, me atormentavam.
– Meus filhos! – eu basicamente gritara enquanto abraçava os dois ao mesmo tempo, perceber que tudo fora um pesadelo, era uma alívio tão grande, que eu os estava esmagando com um grande abraço de urso enquanto as lágrimas escorriam do me rosto.
– Mamãe está chorando, por quê? – perguntara Ronan envolvido por meus braços, e ouvir sua voz tão nitidamente, me fizera espalhar uma dezena de novos beijos em sua face rosada.
– Não é nada meu amor, nada, foi apenas um pesadelo. – eu disse, enquanto dava-o mais beijos e em seguida beijava Viollete – Um horrível pesadelo.
Essas palavras, foram o suficiente para Peeta me envolver com os seus braços fortes assim que terminadas de serem pronunciadas. Em seguida ele me fizera olhar para ele, de forma que eu tive de largar as crianças, que continuavam a pular na cama, brincando.
Peeta me abraçar e me fizera olhar fixamente para ele, de forma que fiquei perdida por um segundo nos seus olhos azuis cristalinos, enfeitiçada por eles. As mãos de meu marido secaram suavemente as lágrimas que ainda escapavam de meus olhos, ele ainda me encarava, preocupado.
– Está tudo bem, meu amor? – ele perguntou, e depois em abraçou fortemente – Eu estou aqui, estamos aqui, está tudo bem. Eu te amo.
Peeta sabia como me acalmar, e apenas o fato de senti-lo me abraçando, já me deixava tão feliz que o pesadelo já estava esquecido, completamente esquecido.
– Foi só um pesadelo meu amor, apenas um pesadelo, não importa. – eu disse me desfazendo de seu abraço e olhando em seus olhos, segurando seu rosto entre as minhas mãos e esquecendo que as crianças pulavam e gritavam ao nosso redor. – Eu te amo, Sr. Mellark!
– E eu te amo, Sr.ª. Mellark! – ele disse tão docemente, mas eu ainda via que ele estava preocupado, então, resolvi fazer algo que eu queria muito fazer.
O beijei.
Deixei minhas mãos correrem para seus cabelos loiros, entrelaçando meus dedos neles, tão feliz de que aquilo era verdade, tão feliz por saber que todo aquele horror fora um terrível pesadelo por causa dos Jogos, da Rebelião e da morte de Prim, pesadelos que nunca me abandonariam e que sempre pareceriam reais.
Mas agora eu não me importava, porque meus lábios e os de Peeta estavam quase urgentes, quase. Minhas mãos passeavam por seus cabelos, enquanto as dele iam para minha cintura, e naquele instante, eu esqueci que tinha crianças no quarto, meu corpo era apenas como um circuito elétrico, o beijo de Peeta fazia isso em mim.
A mão de Peeta apertou levemente minha cintura, exatamente na mesma hora que eu senti algo nos empurrando para cama, de forma que ficássemos sentados. Demorou uns segundos até que eu conseguisse processar que fora Viollete e Ronan que havia nos empurrado e agora riam enquanto pulavam sobre nós, assim como faziam todas as manhãs.
– Papai e mamãe estão se beijando, la, la, la! – as crianças fizeram coro, levantando-se e dando voltas ao nosso redor, pulando na enorme cama.
Peeta me roubou um selinho, e olhando nos meus olhos, sorriu enormemente, aquele sorriso que acabava comigo.
– Katniss, sabe, eu acho que essas crianças merecem uma punição, você não acha?
Imediatamente os pequenos pararam, e eu fiz uma careta maquiavélica.
– Ah sim, eu acho. – eu devia estar parecendo assustadora, porque elas ficaram com medo, até que eu completei – Punição de Cócegas!
Fora o suficiente para os dois saírem correndo pela casa, enquanto Peeta e eu íamos atrás, e eu estava tão feliz, tão feliz, que não queria pensar em mais nada, só naquele momento.
Depois de alguns minutos, eu conseguira pegar Ronan na sala, e o abraçara, beijara e fizera o máximo de cócegas possível, eu amava ouvir sua risada, e depois do pesadelo, era revigorante. Assim como também era ótimo ouvir Viollete rindo ao meu lado, enquanto Peeta fazia cócegas nela.
Eu era a mulher mais feliz do mundo, mesmo com pesadelos, mesmo que Peeta ainda tivesse alguns momentos ruins também, não importava, nós éramos as pessoas mais felizes do mundo. Nós nos amávamos, e amávamos nossos filhos.
Troquei um olhar com ele, e era algo tão claro naquela troca de olhares o que queríamos dizer um ao outro:
“Eu te amo” – fora quase audível o que queríamos dizer, tanto que eu sorri.
Bem, no fim, Peeta sorriu, mas um instante, ele estava sorrindo meio que... Malignamente.
– Agora, é a vez de a mamãe receber cócegas. – as crianças pularam e gritaram de excitação, ao mesmo tempo em que eu fazia uma cara assustada e Peeta se levantava do meu lado, pronto para me pegar.
– Não, não, não! – eu dissera, já correndo, mas rindo, porque eu queria ser pega, eu amava tudo aquilo.
Peeta logo me pegou, bem, ele realmente me pegou no colo e começou a fazer cócegas em mim enquanto as crianças o seguiam e gritavam de felicidade por eu ter sido pega, eu esperneava no colo de Peeta, porque não conseguia parar de rir, e estava começando a doer de tanto que eu ria.
Em dado instante, enquanto ele entrava no quarto, pronto para me colocar na cama e deixar as crianças fazerem cócegas em mim, ele me roubou um beijo, lento e calmo, exatamente do jeito que eu tanto amava, e que fazia meu coração disparar.
Nos minutos seguintes, logo depois que fui colocada na cama, a sessão de cócegas continuou, mas assim que os três acabaram de me “punir”, eu puxei os pequenos para um abraço, um grande abraço esmagador, cheio de beijos, enquanto Peeta abraçava a nós três, beijando levemente meus lábios.
– Eu amo vocês! – ele disse, beijando os pequenos e a mim novamente.
– Eu amo vocês até a lua e a volta! – eu acho que essa fora uma das únicas coisas do pesadelo que era realmente verdade: eu os amava mais que demais. – Vocês foram os melhores anos da minha vida.
Mais uma vez os abracei e os beijei, dando um leve selinho em Peeta em seguida, no final, foi minha vez de lhe lançar uma risadinha maléfica.
– Crianças, é a vez de o papai receber cócegas.
Então, tudo recomeçara, o pesadelo que fora tão real e vivo, agora era passado, o que me importava era meu presente, minha família, e eu os amava mais do que tudo, e com eles eu superaria os piores pesadelos, até mesmo as consequências dos piores jogos que havia para se jogar. Eles eram a minha força, minha vida, e eu os amava, amava mais que demais.
“I love you to the moon and back!"
Eu acho que eu devo explicar, essa música da Taylor, foi um tributo dela para um garotinho, chamado Ronan, que morreu vítima de um câncer (blastoma), tudo o que eu fiz na fic foi colocar esse mesmo garoto como filho de Katniss e Peeta. A mãe dele criou um blog para o filho, se quiserem saber mais, podem me perguntar, sendo assim, essa song é meu tributo para Ronan também. Então, eu espero que entendam que a fic é triste, mas isso é uma forma de mostrar que a história de Ronan nunca será esquecida, e que essa doença realmente existe e lamentavelmente suas maiores vítimas são as crianças. Mesmo com um final feliz na fic, o Ronan de verdade não teve esse lindo final, e foi para ele que escrevi isso, colocar no universo de THG foi apenas algo que tive vontade.E espero que saibam, eu chorei muito enquanto escrevia, pois me coloquei no lugar da mãe dele, e eu ainda choro quando penso nisso. Obrigada a todos que leram! Nikki
Sim é um pouco dramático e ( pra quem não é acostumado ) assustadoramente longo para um só capitulo, afinal são 8.492 palavras! E realmente precisa de fôlego haha.
E é isso! Quero dizer que vou responder todas as tags ( as fila é respectivamente : Book Survey, Primeiro e Último e Doenças Literárias ) ainda essa semana e teremos resenha de De Volta aos Quinze também!


8 comentários:

  1. OMG! É tão bom o texto e ao mesmo tempo tão triste! Parecia que eu estava lá no cemitério com a Katniss :S
    Mas muito boa a pessoa que escreveu esse texto, essa tem talento! kkkkk
    Não terminei de ler ainda q estou meio que sem tempo agora, mas voltarei aqui para fazer isso, amei demais o jeito que ela escreve e o desenrolar dos fatos, que só vai aumentando a curiosidade em saber como termina.
    Adorei o post irmã! (descobri que além de xarás somos irmãs, filhas de Atena! kkkkkk)
    Beijo!
    PS: fiz o post lá no meu blog sobre como personalizar o desktop, vê lá depois!
    Beijo!
    http://booksmanybooks.blogspot.com.br/

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    1. Realmente não dá pra se decidir né ?kkkk tão bom, tão triste... mas a Nicolle escreve muito bem mesmo, tem que ver os outros textos dela. E xarás e manas <3 filhas de Atena!
      Vou dá uma olhada no post sim *-*
      Beijo!

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  2. Que texto!! Não sei se rio se choro... Terminei de ler com uma sensação ruim, parece que quero mais Jogos Vorazes, não sei.... rsrsrs
    Beijos,
    aculpaedosleitores.blogspot.com.br

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    1. Ah Bia, eu fiz os dois rsrs
      Eu bem que queria mais de THG, na verdade a Tia Suzanne está pensando em fazer um livro como uma pequena continuação, ficou sabendo ?

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  3. Olá gostaria que participasse do nosso projeto no blog, é bem simples e de grande ajuda e no final haverá um sorteio de livros.Estamos pedindo aos parceiros,Obrigada pela atenção http://www.leitorasdechocolate.blogspot.com.br/2014/02/tag-blogagem-coletiva.html

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  4. Nossa gente, quase chorei aqui..
    Muito boa a história, essa é a primeira vez que eu leio uma fanfic e aforei. ^^

    http://amolivrosdeverdade.blogspot.com.br/

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    1. Eduarda, eu conheci as Fanfics já faz acho que mais ou menos um ou dois anos e amo! Acho incrível os grandes talentos que se encontra, tem alguns criadores de Fanfics que superam alguns autores de obras publicadas, vale a pena conhecer *-*

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